Por Jocelyn Auricchio
São Paulo, 25 (AE) - É difícil avaliar um jogo com tanta carga emocional. Para a maioria dos jogadores que viveu o fenômeno "Street Fighter", tudo feito em cima da franquia é muito delicado. Não é apenas um joguinho de luta, a grife simplesmente inaugurou o game de luta moderno. É uma verdadeira paixão, similar à dos torcedores mais fanáticos por futebol.
"Street Fighter" é uma melhores traduções do espírito das artes marciais para as massas. Não basta saber dar golpes e ter técnica. Tal qual em uma competição marcial, a superioridade técnica não é tudo. É necessária boa dose de sorte, determinação e astúcia. E, como em um duelo entre amigos rivais, é preciso ter alegria ao combater, para enxergar entre os gestos do oponente uma abertura para encaixar uma devastadora sequência de golpes.
É verdade que a série deu umas escorregadas, mas a essência da luta, a superação pelo treino, o refinamento pela persistência, isso continuou intacto. E "Street Fighter IV" (SFIV) conseguiu não só se manter fiel às raízes da série como foi além.
O game é uma versão atualizada, refinada e amplificada de "Street Fighter II". A Capcom decidiu passar uma borracha nos equívocos passados, deu ouvidos aos fãs e criou mais uma obra-prima do entretenimento digital. Sem exagero, SFIV é o melhor jogo de luta já feito. É técnico ao extremo, complexo e intrincado para os jogadores de elite. Para os novatos, é amigável, pois a complexidade dos combates vai se descortinando em camadas a cada oponente via internet ou nível de dificuldade conquistado.
Os comandos, que acionam os golpes especiais e magias - projéteis de energia que permitem que o combate aconteça mesmo à distância - são facilmente reconhecidos pelo game. Mesmo quem não tem afinidade com o game consegue realizar os movimentos especiais.
O maior receio dos fãs, de que o game fosse ficar descaracterizado, não se confirmou - pelo contrário. SFIV remete o tempo todo a SFII, mas sem saudosismo exagerado. É como se o jogo de 1991 fosse feito com todos os recursos e o capricho de hoje em dia. A direção de arte do jogo acertou em cheio. Além do visual cartunesco - com o traço forte característico dos animês -, a modelagem tridimensional dos personagens ficou perfeita.
São caricaturas, é verdade, com movimentos teatrais e proporções exageradas, mas é isso que se espera do game. Não é um documentário sobre artes marciais, mas uma espécie de desenho animado interativo.
E em alguns momentos, parece que assistimos realmente a uma animação digital do calibre da Pixar, tamanha a beleza. Tudo é gerado em tempo real pelo game. A expressão facial dos personagens também ficou incrível. Com o olhar, eles expressam fúria, cautela e dor. E como eles sofrem no game...
A parte sonora do jogo excedeu qualquer expectativa. Além das vozes, presentes tanto em japonês quanto em inglês, o jogo conta com uma trilha sonora genial. A maioria das músicas veio diretamente de SFII, com novos arranjos. A única escorregada é a música tema do jogo, cantada por uma espécie de boy band japonesa, que destoa do clima do game.
Tecnicamente impecável, acessível e simples de jogar. SFIV é o primeiro grande jogo de 2009.